NISE DA SILVEIRA: ENTRE A ARTE E A PSIQUIATRIA

Nise da Silveira foi uma psiquiatra e antipsiquiatra que revolucionou a forma de lidar com os pacientes. Ela foi radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento, a camisa de força, o eletrochoque e a lobotomia, condições nas quais o hospital psiquiátrico e cárcere se confundem. Trabalhou no Centro Psiquiátrico Nacional, Engenho de Dentro (Rio de Janeiro), no Setor de Terapia Ocupacional, no qual instalou um ateliê de quadros e esculturas e permitiu convívio com gatos e cachorros.

Os pacientes participam do processo psíquico de elaboração criadora, isto é, de dar forma aos sentimentos e imagens do eu profundo. As pintura revelavam, para a doutora Nise, já em 1946, imagens espontâneas de pessoas que vivem estados perigosos do ser ou seja, referia-se a certos acontecimentos terríveis que podem ocorrer na profundeza da psique, avassalando o ser inteiro: descarrilhamentos da direção lógica do pensamento; desmembramentos e metamorfoses do corpo; perda dos limites da própria personalidade; estreitamentos angustiantes ou ampliações espantosas do espaço; caos; vazio; dentre outras condições subjetivamente vividas  e vistas através das pinturas dos internados de Engenho de Dentro. Assim, a produção do ateliê do Setor de Terapia Ocupacional chamou a atenção não somente de pesquisadores de saúde mental e médicos, mas também de críticos de arte, resultando na organização de duas exposições internacionais e, em 1952, na inauguração do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Suas principais coleções foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Nise da Silveira criticava o positivismo, questionando a supervalorização do racional e dualismo mente-corpo. Por tanto, entende que a terapêutica ocupacional não deve objetificar o doente, mas fazer com que ele desenvolva modos de lidar e manter seu equilíbrio psíquico e, assim, ter certa autonomia para decidir. Para isso, ela suspendeu suas teorias e preconceitos sobre a esquizofrenia, procurando primeiro compreender seus pacientes a partir da relação com os mesmos. E assim afirmava que o terapeuta deve se utilizar da intuição para atender seu paciente, ao invés de se enrijecer em protocolos técnicos. A sensibilidade para captar desejos no canto dos olhos de esquizofrênicos é muito mais importante que conhecimentos técnicos. Se as duas coisas estiverem juntas evidentemente será o ideal.

Isso deixa explicito que muito embora na generalidade dos casos seja o corpo biológico o alvo do tratamento, o corpo é, para a pessoa, o seu bem indisponível, como o são a sua cidadania ou a sua liberdade. Não é, portanto, neste corpo material que radica toda a verdade e toda a ação de investigação e de tratamento. Um indivíduo, portanto, deve ser encarado no seu todo, uma vez que a pessoa humana não se compreende senão na articulação de três planos distintos, mas ligados: o plano biológico, o plano relacional do seu ser com o outro e o plano simbólico da inscrição numa cultura, numa língua, numa tradição. Respeitando a ideia de integração desses três planos, afirma-se, de fato, a dignidade humana. A partir disso, é lembrada a formulação do imperativo fundador da moral de Kant: “afirmar a dignidade da pessoa é lembrar que se deve tratar sempre a humanidade, na minha pessoa e na do outro como um fim em si e nunca simplesmente como um meio, mostrando que a compreensão da pessoa mostra a existência de respeito, não só por ela, mas pelo que é o ser humano”. A medicina é a arte/ciência que radica na compreensão do indivíduo na sua total complexidade, dignificando o conceito humano.

O médico é, assim, um ajudante da transmutação do doente, mas, como testemunha deste fenômeno, ele próprio encontra as pistas para se descobrir a si. O agir sobre a doença é, para o médico e para o doente um ato de transformação recíproca. Porque agir designa uma atividade em que o sujeito se produz a ele próprio na sua atividade.

Para finalizar, foi realizada uma trilogia do cineasta Leon Hirszman intitulada Imagens do inconsciente, a qual faz uma apresentação sintética e muito sensível desse campo de sentidos que abre a passagem entre o hospício e o mundo das imagens. A narrativa do filme associa pensamento e emoção no advento do sentido junto ao Outro. O filme aqui postado é o segundo da trilogia, No reino das mães, o qual apresenta Adelina Gomes (1916-1984), paciente do Engenho de dentro. Boa sessão =]

REFERÊNCIAS

FRAYZE-PEREIRA, João A.. Nise da Silveira: imagens do inconsciente entre psicologia, arte e política. Estud. av.,  São Paulo ,  v. 17, n. 49, p. 197-208,  Dec.  2003 .

LEAL, Luiz Gonzaga Pereira. Entrevista com Nise da Silveira. Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 14, n. 1-3, p. 22-27,    1994 .

SCHLEDER, Karoline Stoltz; HOLANDA, Adriano Furtado. Nise da Silveira e o enfoque fenomenológico. Rev. abordagem gestalt.,  Goiânia ,  v. 21, n. 1, p. 49-61, jun.  2015 .

conexoesclinicas.com.br/a-vida-e-a-revolucao-de-nise-da-silveira-por-daniel-taubkin/

revistacult.uol.com.br/home/2016/02/nise-da-silveira-a-terapia-ocupacional-e-o-museu-do-inconsciente/

http://www.nova-acropole.pt/a_medico_doente_filosofo.html

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